Falta de respeito

Falta de respeito… é o que se pode dizer sobre o mais recente caso de violência na escola que nos últimos dias entrou com inusitada insistência pelas nossas casas dentro.

Primeiro, a enorme falta de respeito da aluna em causa para com a professora que apenas tentou manter a normalidade das condições de trabalho na sala de aula.

Depois, a falta de respeito generalizada à qual esta professora foi sujeita, durante todos estes dias, pela sistemática exibição desta ocorrência no espaço mediático, violentando-a na sua dignidade profissional de uma forma de todo intolerável.

Pelo meio, fica a multiplicidade de comentários e o aproveitamento político em torno da situação, gerando um ruído de fundo que em nada aproveita à serenidade que situações como esta exigem e que esta docente com grande sentido de responsabilidade procurou manter, actuando de forma discreta junto do Conselho Executivo da Escola como era devido.

Se de todo este debate resultarem soluções para que se enfrente com acertividade as causas profundas de todo este problema, terá valido a pena. Mas, se daqui apenas resultar mais discurso balofo e puro aproveitamento político, esta professora terá sido duplamente desrespeitada.

Muitas foram as “pérolas” produzidas pelas declarações políticas sobre o tema.

Uns procurando atacar a alteração produzida no estatuto do aluno, como se as leis por si só bastassem para a não ocorrência de actos puníveis. Outros descabelando-se por, a reboque disso ou da política de educação em geral, atacar a Ministra da Educação que qualquer dia, de tanto ataque, ainda passa a “mártir de pátria”.

Por último, num artigo hoje publicado no Jornal de Notícias, surge Honório Novo, Deputado que muito estimo, a tentar problematizar sobre a actuação da DREN. Mais uma “pérola”, dir-se-ia, mas tendo em conta o autor, é algo mais. Honório Novo é um Deputado experiente e habitualmente bem documentado, por isso não se consegue perceber a origem de tão descabelado artigo de opinião em que sugere que a DREN terá tido uma postura bem diferente da que teve em Dezembro quando na mesma escola ocorreu um caso idêntico, perante o qual terá transformado a decisão de expulsão proposta pela escola em transferência e que esta desta vez se teria antecipado abrindo um inquérito que serve “de biombo à Ministra da Educação”.

Honório Novo erra porque agora como em Dezembro o processo disciplinar, tal como é estabelecido no estatuto do aluno, está a ser conduzido pela escola cabendo à DREN analisar a medida proposta pelo Conselho Disciplinar e acolher ou alterar a mesma.

Quanto ao facto de dizer que a medida de expulsão proposta pela escola foi alterada pela DREN para “transferência (quando o novo Estatuto do Aluno não tinha sido aprovado pelo PS nem tinha sido ainda eliminada a sanção de expulsão)” espanta-me que ao meu querido colega não lhe ocorra que a solução deste problema não passa por desistirmos destes jovens e que colocá-los fora do sistema de ensino poderia ser um primeiro passo para a exclusão de uma sociedade que muitas das vezes não foi capaz de lhes dar respostas.

Sou socialista e, por isso, não desisto das pessoas.

Espero que de todo este debate surjam mais respostas para as grandes interrogações com que todos - pais, educadores, professores, pedagogos, decisores políticos, sociedade civil em geral - nos defrontamos: que sociedade queremos e estamos a construir? Que educação queremos e somos capazes de dar aos nossos jovens?

Se assim acontecer todo o ruído de fundo estará “perdoado” e até poderá ter valido a pena…

Mas, para que enfrentemos com sucesso o desafio que este caso nos lança, é preciso moderação, bom senso, serenidade.

Esta é, sem dúvida, a mensagem que esta professora, de um modo não premeditado, nos deixou na forma como actuou. Agora impõe-se que o debate continue, tendo a preocupação de a respeitar.

4 comentários a “Falta de respeito”

  1. joao nobrega Diz:

    Camarada concordo em muito do que diz. Sendo socióloga importa-se de analisar o comportamento da professora?. A jovem está errada mas a atitude da professora nada me diz como foi. Se sabe, camarada, diga-me como foi.
    Solidário
    João Nóbrega

  2. Alexandre Silva Diz:

    Falta de respeito
    Efectivamente foi (é) uma falta de respeito o que aconteceu na sala de aula daquela escola bem como o que se lhe sucedeu com as publicações na net e na imprensa…
    Sobre a autoridade dos professores (ou a falta dela) e a cada vez maior irresponsabilidade de alunos (e respectivos pais ou encarregados de educação) tenho uma opinião diferente da que muitas vezes tem sido apresentada como caminho para a solução dos problemas (mas que em nada tem resultado).
    Há falta de autoridade dos professores? É verdade, mas não é só de agora embora se tenha vindo a tornar cada vez mais visível já que a globalização dos meios de comunicação assim faz acontecer…
    Foi após o 25 de Abril que tudo se modificou? Não, não é verdade. Eu andei na escola antes do 25/4 e já na altura, numa escola de referência (Escola Comercial Oliveira Martins, no Porto) tinha professores que sabiam impôr a sua autoridade e outros que nem sabiam o que isso era… O que faziam os alunos? O mesmo que hoje (obviamente salvaguardando as diferenças da existência de telemóveis, ipod’s, etc…)Numas aulas o comportamento era excelente e noutras nem por isso.
    Então perdoem-me mas o que se passa´hoje é exactamente o mesmo: há professores que sabem o que é ser professor e manter a autoridade dentro e fora da sala de aulas e outros que nem por isso.
    O problema é que, chegados aqui, a solução será parar e alterar radicalmente.
    Não é a meio de um ano lectivo que a autoridade se impõe e se aceita: é na primeira aula de cada ano. E é necessário que as regras definidas aí sejam cumpridas rigorosamente sempre e que ao mínimo incumprimento se tome uma atitude…coerente com as regras definidas.
    Deixem-me relatar um episódio recente e que se tem repetido diariamente num estabelecimento de ensino superior que frequento há já dois anos (Fac. Letras UP, Curso de Geografia).
    Aqui temos sucessivamente professores que clarificam as regras de funcionamento da aula (para todos, professor e alunos) e outros que se “marimbam” para tal… Resultado: aulas perfeitamente dadas sem telemóveis ou interrupções permanentes, alunos que entram e saiem ordeiramente (e sem interferência no desenrolar da aula, cumprimento de horários por parte de todos, professores incluídos (pese embora a maleabilidade horária para os alunos), resultados de razoável a muito bom no aproveitamento geral nessas disciplinas que assim funcionam; nos outros casos é o caos completo; alunos que ouvem música nos ipod e telemóveis, que lêem o jornal, que estão na net nos sites que nada têm a ver com a aula em questão, professores que nada dizem sobre o que se passa e mais, que acham ter a ver com essas situações já que somos todos de maior idade…. Resultado: permanente abandono daquelas disciplinas, péssimos resultados nos testes, tentativas permanentes (muitas vezes conseguidas!!) de copianços…perante a passividade absoluta do professor.
    Apenas para concluir: frequenteo o 10º ao 12º ano do recorrente nocturno na Escola António Sérgio em V.N. Gaia e é exactamente a mesma situação.

    Poderia dar uma quantidade enorme de exemplos, bons e maus. Outros, idênticos aos anteriores, da escola onde andam os meus filhos (no 6º e 9º anos).

    O problema é pois e antes de de atitude dos professores.

    E não me venham dizer que os professores foram desautorizados pelos sucessivos Ministérios da Educação desde Abril de 74… Qualquer pessoa minimamente corente e honesta sabe que isso não é verdade. E não é por ser repetido até à exaustão pelos sindicatos (sim, são eles que o repetem) que passa a ser verdade.

    Claro que é um problema de educação, respeito, sociedade, cultura, responsabilidade, dos pais, da escola, de todos.

    Mas perdoem-me os professores e todos os especialistas em educação que até hoje não resolveram o problema: o problema a resolver é um problema de atitude no primeiro dia de aulas de cada ano lectivo. Tudo o resto se desenvolve a partir daí.

    Nota: Tenho 50 anos e fiz o Curso Comercial terminado em 1974 após ter reprovado (e que bem que me fez!!) um ano; voltei à escola, ao 10º ano em 2003/2004, fiz o recorrente até ao 12º ano e por desafio de dois professores (da Esc. António Sérgio) fiz o Exame Nacional para me candidatar ao ensino superior público; fiz o exame em questão e entrei na Univ. Porto, Fac. Letras, Curso de Geografia (a minha escolha)onde estou actualmente no 2º ano.

    Já agora, são conhecidos comentários dos sindicatos à questão da aluna do Carolina Michaelis?!

  3. Isabel Santos Diz:

    Este tipo de acontecimentos têm sempre por trás de si a conjugação de uma multiplicidade de factores sociais e da esfera da personalidade dos intervenientes, alguns deles aqui abordados pelo Alexandre Silva. Centrar a nossa análise num ou noutro elemento é redutor e devemos recusa cair nesse logro.
    Mas respondendo à pergunta concreta do João Nóbrega, devo mencionar ter sido uma das primeiras questões com que me confrontei ao tomar conhecimento do ocorrido e que me levou a procurar alguma informação complementar à simples observação das imagens transmitidas pela comunicação social.
    Sem entrar em por menores, porque o mais importante é analisar o fenómeno no seu todo. Tenho que salientar, neste caso, a serenidade que a professora mantém ao longo de todo o episódio e o facto de não ter expulsado a aluna da aula- solução mais óbvia- a conjugação destas duas atitudes numa pessoa experimentada na função docente revela o respeito desta professora pelos seus alunos procurando levar a aula até ao fim com a presença de todos, numa postura pedagógica de não desistência de nenhum deles da qual acabou por ser vítima.
    Devo ainda referir que esta professora, ao contrário de alguns “comentadores”, e é óbvio que não me refiro ao Deputado Honório Novo cujo artigo deu origem ao meu post, mas a “inefáveis personalidades” que, em bicos de pés, logo se apressaram a falar para a comunicação social, se recusou e recusa a empolar esta ocorrência e que deu nota da mesma à Comissão Executiva, consciente que é na esfera disciplinar que deve agora ser tratada.

  4. Alexandre Silva Diz:

    Bom dia de novo.
    Não posso deixar de colocar os seguintes comentários:
    Claro que será necessário saber qual o início do problema naquela sala de aula. Claro que é importante saber como começa aquela aula (a professora desliga o seu telemóvel e pede aos alunos que façam o mesmo ou pede apenas aos alunos que o façam ou…? - O conhecimento da resposta a estas questões fará toda a diferença para avaliarmos os procedimentos de todos).
    Mas independentemente disso (e de outras condicionantes que desconhecemos) a aluna e demais “cumpl
    ices” devem ser punidos de forma exemplar e de forma a que sirve de exemplo.

    Quando a isabel Santos diz “…o facto de não ter expulsado a aluna da aula - solução mais óbvia - …revela o respeito desta professora pelos seus alunos…numa postura pedagógica de não desistência de nenhum deles..” eu discordo frontalmente e profundamente e deixem-me explicar porquê e deixar algumas questões sobre o assunto (que não é fácil):
    No meu entender a solução não só óbvia mas única seria a de ter expulsado a aluna (ou alunos) da sala de aula fazendo seguir o processo disciplinar que deva ser efectuado.
    E assim mostrar o respeito em especial por aqueles que naquela sala de aula estão presentes para aprenderem efectivamente. Ou será que esses alunos, hoje, sentem o mesmo respeito por aquela professora que sentiriam se ela tivesse tomado a atitude de expulsão da sala daquela outra aluna?
    A atitude dita pedagógica da não desistência dos diversos alunos não me parece ser real - e já o digo há muito tempo nas intervenções que tenho feito nas reuniões escolares dos meus filhos - pois tem sido esta “pedagogia” que nos tem levado (ou trazido) até aos acontecimentos de hoje em uitas escolas, em todas as escolas.
    Continuo a dizer que é “apenas” uma questão de atitude no início de cada aula, logo no início de cada ano lectivo.
    E caros senhores alunos, professores, auxiliares, pais, encarregados de educação … assumam que se os alunos não sabem estar na escola não podem estar lá. Esqueçam que vai haver mail uma percentagem de alunos que desiste da escola, que o insucesso escolar vai aumentar e todo um conjunto de premissas que todos os dias ouvimos dizer ´ser por ela que “lutamos”: nas condições actuais vai mesmo haver tudo isso e não é só de forma estaística, é de forma real. Então sejamos realistas: tiremos da escola quem não quer lá andar para que os que querem possam efectivamente aprender.
    É lamentável - mas é a realidade.

    Nota importante: Claro que não podemos desister dos alunos, da escola, da vida à primeira…mas… quando começamos a contar de forma a tomar atitude drásticas pelo menos à terceira?

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