Pignatelli Queirós, monárquico e deputado do grupo parlamentar do PSD, apresentou um voto de pesar assinalando a passagem do centésimo aniversário sobre o regicídio de 1908. Uma iniciativa entre as diversas que procuraram assinalar esta data.
É compreensível, num quadro democrático, que aqueles que se identificam com a “causa monárquica” tomem este tipo de iniciativas, assinalando momentos marcantes da história, e tentem relançar a discussão sobre o regime.
O que não seria natural, nem tolerável, era que o Estado se misturasse com manifestações que não promove e se inscrevem numa esfera privada.
Em democracia não há lugar para a promoção de uma História Oficial e o que aconteceu nestes últimos dias foi, sem dúvida, uma tentativa de pintar com novas cores o estado de degenerescência que se vivia nos últimos momentos da monarquia, através do enaltecimento dos aspectos positivos da personalidade do Rei D. Carlos.
Se a Assembleia da República tivesse votado favoravelmente este voto de pesar, o que daí resultaria seria a vitimização da monarquia e uma condenação da luta pela implantação da República passados cem anos. Algo inaceitável para todos nós.
Não nos compete julgar o passado.
Sou uma republicana convicta e a história da minha família materna é profundamente marcada pela luta pela implantação da República. Mas não se trata aqui de defender o regicídio: foi um acto violento e estes actos são sempre condenáveis por esse prisma. Contudo, na leitura dos factos não podemos apagar a realidade histórica daqueles que os viveram e não é legítimo querer mudá-la por via da edulcoração do carácter dos seus personagens.
Aliás, reinterpretar a história pelo enaltecimento do lado “mais humano” de alguns dos seus personagens, parece começar a constituir uma tendência na sociedade portuguesa. Veja-se o caminho que se iniciou recentemente com António de Oliveira Salazar.
A história das nações e a história das grandes figuras de cada momento é feita de luz e sombras. Parafraseando a declaração produzida pelo Deputado António Filipe na sessão plenária da Assembleia da República, é feita “de grandes momentos e pequenas misérias”. Não compete ao Estado produzir a qualquer momento juízos sobre figuras ou momentos do passado colectivo.
O que se tentou, ao longo destes dias, por via da exaltação da figura de D. Carlos, foi lançar uma discussão sobre o regime que verdadeiramente não existe na sociedade portuguesa. A prova disso é que, apesar do vasto conjunto de iniciativas promovidas pelos movimentos monárquicos, não se verificou uma mobilização do povo português para animar este debate.
De tudo isto fica como facto positivo a associação dos media à evocação desta data, promovendo a edição de um vasto conjunto de programas e publicações de grande interesse cultural sobre essa época.