O Bolhão

Tenho bem viva essa imagem da minha infância.

O gigantismo do edifício em contraste com a minha estatura. O grito das mulheres a entoar pregões. A mistura de cheiros. O colorido das flores, em contrastes com as frutas, as verduras e o peixe sempre frescos. Os varandins de ferro contorcido em artístico desenho, e a luz, sempre a luz, que os alpendres e toldes das bancas acabam por coar.

É certo que desde então muita coisa mudou - assinalo hoje o meu quadragésimo aniversário… - e do Bolhão desse tempo, dentro do qual eu circulava de mão dada com os meus pais, resta a memória.

Mas requalificar o Mercado do Bolhão esquecendo ou apagando esta memória e a daquelas mulheres e homens que fizeram e ainda fazem do Mercado a sua vida seria amputar o Porto de mais um pedaço da sua alma.

Sobre o Projecto resultante do acordo entre a TramCoNe(TCM) e a Câmara do Porto paira hoje a dúvida dada a disparidade entre os dados divulgados pela empresa e pelo município.

Mas uma coisa é certa, a estrutura que surgir desta requalificação só terá potencial concorrencial, face à multiplicidade dos complexos comerciais existentes na malha envolvente e nos arredores, se preservar e der dimensão à especificidade do Bolhão. Caso contrário, não passará de uma oportunidade perdida e mais uma afronta para a cidade.

Depois do que aconteceu com o Rivoli, com a Avenida dos Aliados e tantas outras referencias da vida portuense, não sei se resistiríamos a mais este golpe na nossa identidade colectiva.

É tempo desse Porto que, parafraseando Almeida Garrett, troca os vês pelos bês mas não troca liberdade por escravidão, se levantar num grito de alma.

É tempo de o Dr. Rui Rio ouvir um forte - Basta!

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