Arquivo de Fevereiro, 2008

O vazio

27 de Fevereiro de 2008

A colagem do PSD aos protestos que alguns sectores anunciam para as próximas semanas, torna ainda mais evidente o vazio em que se encontra.
Num momento em que, mercê da reforma do Parlamento, a oposição acaba de ganhar maior espaço de intervenção e debate, esta colagem aos movimentos sociais, por parte de um partido que não tem esse perfil, só pode ser lida como consequência da falta de projecto alternativo e da desistência de fazer oposição.
Enfim, este é o retrato de quem, em desespero, acaba por transferir para a rua aquilo que não consegue fazer nos palcos próprios, por se estar a consumir numa surda guerra intestina de protagonismos ao mesmo tempo que se esvai pela falta de ideias e de capacidade de se constituir como alternativa credível.
A entrevista de Luis Filipe Menezes, transmitida ontem pela SICnotícias, tornou estes traços constrangedoramente evidentes.

O Bolhão é nosso!

24 de Fevereiro de 2008

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo …

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos

stoildefonso-mercado-do-bolhao-1-a.jpgO Bolhão é nosso! Foi a palavra de ordem ouvida ontem no Porto.

Um clamor que promete não parar até que a Câmara Municipal assuma a responsabilidade que lhe cabe na preservação deste espaço público.

Madalena Barbosa

22 de Fevereiro de 2008

Hoje não vou escrever sobre política. Escreverei apenas sobre uma grande mulher que um dia teve a coragem e a generosidade de se auto-definir como: “feminista, socialista e mulher, chamada em outros lugares do mundo gender expert”.

Morreu Madalena Barbosa. A notícia chegou ontem via e-mail.

Não tive oportunidade de a conhecer pessoalmente. Tomei contacto com o seu trabalho há alguns anos e aprendi a admirá-la através dele. Ultimamente, a minha colega e amiga Sónia Fertuzinhos falava-me dela e da força que congregava em torno do plano de edição do seu livro.

A vida tem destas ironias, “Que Força é Essa” - livro de crónicas e textos de reflexão sobre temas que vão das questões do feminismo, igualdade e estudos de género, à historia, à educação, ao trabalho, família e conciliação, à participação cívica e política, à saúde sexual e reprodutiva, à violência e ao aborto - é lançado hoje, 22 de Fevereiro, pelas 18h00, na Fábrica de Braço de Prata.

Uma justa homenagem a quem nunca deixou de lutar.

A liderança

21 de Fevereiro de 2008

Começam a ser demasiado evidentes os tropeções provocados pelo “Tratado de Tordesilhas” que governa o PSD.

Como última peripécia temos o adiamento da “presidência aberta” do grupo parlamentar liderado por Santana Lopes.

O pretexto é que estando marcada para a próxima segunda-feira coincidiria com as jornadas parlamentares do PS…

Alguém acredita?

Então a oposição PSD não está interessada em fazer contraponto às jornadas e dividir as atenções da comunicação social?…

O problema começa a ser exactamente esse. Uma questão de projecção mediática.

Como se previa, a partilha de liderança e protagonismo entre Santana Lopes e Luís Filipe Menezes começa a causar mau estar no interior do PSD. Era fatal como o destino.

Violência Doméstica

20 de Fevereiro de 2008

“Amo, chut, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.”
Sebastião Alba, do livro “A noite dividida”

Relatório apresentado pela UMAR sobre violência doméstica, mostra o quanto ainda é preciso investir na educação, sensibilização e informação no combate a este fenómeno que não conhece qualquer tipo de barreiras.
Em plena vigência do III Plano Nacional Contra a Violência Doméstica, e muitas iniciativas legislativas depois, ainda somos confrontados com a brutalidade dos números. Em 2007, vinte e uma mulheres foram vítimas de homicídio doméstico e outras 57 foram alvo de tentativa. Sendo que com as que morreram foram também mortos três descendentes.
Nunca saberemos quantas vítimas de violência doméstica seria possível salvar da morte e do sofrimento se aqueles que lhes são próximos não se calassem perante os sinais de agressão.
A violência doméstica é um crime público. É obrigação de todo e qualquer cidadão denunciá-lo junto das autoridades para que se apoie e proteja as suas vítimas. Este é um combate civilizacional a que não se pode dar tréguas.

O Justo de Bordéus

19 de Fevereiro de 2008

Hoje, a Assembleia da República foi palco da apresentação pública do museu virtual Aristides Sousa Mendes (www.mvasm.com).

Um trabalho notável que nos interpela a todos sobre a natureza humana no que tem de mais ignóbil (o holocausto nazi) e grandioso(a heroicidade de alguns, como Aristides Sousa Mendes).
Um projecto feliz, cuja abertura ao contacto do público se realizou na data em que se assinala o 20º aniversário sobre a reabilitação deste diplomata pelo Parlamento
A passagem pelos “corredores” deste museu virtual permite aceder a documentos, fotos e filmes inéditos sobre a vida daquele que em 1940, na qualidade de cônsul português em Bordéus, assinou os vistos que permitiram a 30.000 refugiados fugir aos horrores do nazismo. A maior operação de salvamento efectuada por um só individuo.
A memória do justo de Bordéus fica, assim, à distância de um clique, seja qual for o ponto do globo em que nos encontremos.
Fica no seu lugar, ou seja, em todos os lugares e em lugar nenhum. A mais justa dimensão para guardar o registo do gesto heróico deste ser humano cuja dimensão é tal, que lugar algum era capaz de albergar.
Fica aqui o incitamento a uma “viagem” que nos mostra como, por vezes, um só ser humano consegue fazer toda a diferença.

Pólis de Gondomar [JN]

19 de Fevereiro de 2008

polis-de-gondomar-jn-19-02-2008.pdf

O Cordão Humano

15 de Fevereiro de 2008

Os trabalhadores da Câmara Municipal do Porto fazem hoje um cordão humano. Mais uma jornada de protesto, desta vez contra o encerramento da cantina dos Paços do Concelho.
Independentemente das razões que possam ou não fundamentar esta decisão, cuja competência, por se tratar de matéria relacionada com a gestão e direcção de recursos humanos, é do Presidente da Câmara, é intolerável a ausência de capacidade de diálogo que este mais uma vez revela.
Não é aceitável que, tendo sido solicitada por parte dos vereadores do PS e da CDU a marcação de uma reunião extraordinária para a discussão deste assunto, o Dr. Rui Rio tenha recusado acolher tal proposta.
Percebe-se o incómodo que a discussão destes assuntos traz a uma personagem com um perfil tão autocrático de exercício do poder. Mas não se pode tolerar este tipo de atitude.
Rui Rio insiste mais uma vez no erro de não querer perceber que a acção política só faz sentido se tiver no seu centro as pessoas, os cidadãos, e que as instituições públicas têm nos seus trabalhadores o mais importante activo para a prossecução da sua missão ao serviço das populações.
Olhando para a actuação do Presidente da Câmara do Porto, tem-se a sensação que este transformou o seu gabinete numa “trincheira” a partir da qual trava uma “guerra” interminável contra os trabalhadores do município e os cidadãos do Porto.

Polis de Gondomar

14 de Fevereiro de 2008

Somos muitas vezes questionados sobre a eficácia das perguntas e requerimentos dirigidos pelos deputados ao Governo e instituições públicas.
Pois bem, fica aqui o registo de uma dessas iniciativas com resultados visíveis. Falo da intervenção Polis em Gondomar.
Constam entre os documentos disponíveis nesta página dois requerimentos apresentados ao Ministério do Ambiente sobre a situação das obras de requalificação da zona ribeirinha entre Gramido e Atães.
Uma intervenção marcada por vários percalços: o atraso na execução, que acabou por conduzir a uma adenda ao contrato-programa inicial; a falta de envolvimento das populações e de informação no local; e ainda pelo facto de a Casa Branca de Gramido -onde foi assinada a convenção entre liberais e miguelistas - depois de ver concluída a sua recuperação em Abril de 2006, ter ficado até hoje sem abrir ao público.
Recebi a resposta à pergunta que dirigi ao Ministério do Ambiente. Mas antes dela chegar eram já bem visíveis os efeitos provocados pela publicação de notícias na comunicação social sobre esta iniciativa.
Os jornais locais têm publicado diversas notícias sobre o Polis.
A zona de intervenção é agora assinalada por placas informativas.
As agendas municipais são preenchidas por processos administrativos, que passaram a desenvolver-se a outra velocidade.
Pena é que a Casa Branca continue na mesma… Mas a resposta ao requerimento garante que “o Gabinete do Coordenador do Programa Polis irá acompanhar o desenvolvimento deste processo até que se verifique o cabal cumprimento dos objectivos” do projecto.
Espero que a breve trecho este edifício seja aberto ao público e seja travado o estado de degradação em que começa a entrar, depois da realização de obras orçadas em 1 milhão de contos.
Todavia, para isso é preciso que seja definida uma finalidade para a utilização do imóvel, o que parece difícil dada a diversidade de fins sucessivamente anunciados e a necessidade de realização de obras de adaptação do interior do edifício, que o cumprimento de algumas hipóteses anunciadas implicará. Algo que teria sido evitado se o projecto tivesse sido orientado para uma utilização determinada. Elementar, ou talvez não…
A Casa Branca e toda a intervenção Polis bem o retrato daquilo que é a gestão camarária em Gondomar. O mais completo desnorte, marcado pela política do imediatismo, do foguetório fácil, sem um fio condutor, sem uma linha estruturante, que nos permita vislumbrar um golpe de asa futuro. Enfim, uma completa navegação à vista conduzida numa lógica do “logo se verá”, que coloca Gondomar na cauda da Área Metropolitana do Porto.
Algo tão mais lamentável quanto são certas e visíveis as potencialidades do concelho, desbaratadas pela falta de visão estratégica daqueles que têm os destinos do município nas mãos.

O Bolhão

12 de Fevereiro de 2008

Tenho bem viva essa imagem da minha infância.

O gigantismo do edifício em contraste com a minha estatura. O grito das mulheres a entoar pregões. A mistura de cheiros. O colorido das flores, em contrastes com as frutas, as verduras e o peixe sempre frescos. Os varandins de ferro contorcido em artístico desenho, e a luz, sempre a luz, que os alpendres e toldes das bancas acabam por coar.

É certo que desde então muita coisa mudou - assinalo hoje o meu quadragésimo aniversário… - e do Bolhão desse tempo, dentro do qual eu circulava de mão dada com os meus pais, resta a memória.

Mas requalificar o Mercado do Bolhão esquecendo ou apagando esta memória e a daquelas mulheres e homens que fizeram e ainda fazem do Mercado a sua vida seria amputar o Porto de mais um pedaço da sua alma.

Sobre o Projecto resultante do acordo entre a TramCoNe(TCM) e a Câmara do Porto paira hoje a dúvida dada a disparidade entre os dados divulgados pela empresa e pelo município.

Mas uma coisa é certa, a estrutura que surgir desta requalificação só terá potencial concorrencial, face à multiplicidade dos complexos comerciais existentes na malha envolvente e nos arredores, se preservar e der dimensão à especificidade do Bolhão. Caso contrário, não passará de uma oportunidade perdida e mais uma afronta para a cidade.

Depois do que aconteceu com o Rivoli, com a Avenida dos Aliados e tantas outras referencias da vida portuense, não sei se resistiríamos a mais este golpe na nossa identidade colectiva.

É tempo desse Porto que, parafraseando Almeida Garrett, troca os vês pelos bês mas não troca liberdade por escravidão, se levantar num grito de alma.

É tempo de o Dr. Rui Rio ouvir um forte - Basta!